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Je Suis Charlie: não por ele, mas por todos nós.

Não coloquei a frase como foto de perfil no Facebook. Muito menos o pensei em fazer. Manifestei-me à minha maneira, com um simples comentário no Twitter e no Facebook: You can kill a man, you cannot kill the ideas he drew on paper. His pen is stronger than your gun. ‪#‎CharlieHebdo‬.

Não por não falta de identificação com as motivações de quem o fez; apenas por optar por uma expressão diferente dos nossos valores. Os que moldam a nossa noção de pertença a uma sociedade que defende a liberdade de expressão, não como um direito de dizer o que se quer, mas como um pilar fundador de um modo de vida de expressão livre do pensamento. No entanto, perante alguns textos que tenho lido, sinto a necessidade de escrever mais algumas palavras.

Com isto dito, afirmo que não me identifico com o trabalho do Charlie Hebdo. Não é o trabalho que mais acompanho, que mais me inspira ou no qual vejo representados os meus pontos de vista. No entanto, não é o trabalho que aqui está em causa; o atentado ao Charlie Hebdo tornou-se uma representação de algo que o ultrapassa. Não são os seus desenhos que nos movem, mas a violência bárbara com que foram punidos. Je Suis Charlie pouco tem que ver com o que o tinha sido publicado; é uma forma de condenação à actuação terrorista, porque o atentado não foi ao jornal, mas um atentado a todos nós.

Esta parece ser a premissa que alguns comentadores ou cronista tendem a ignorar. O terrorismo intelectual a que tem sido submetido Je Suis Charlie, juntamente com o conjunto de acontecimentos que lhe deram origem, por parte de alguns comentadores pseudo-iluminados, tem sido alvo roça o cúmulo do ridículo. Não sei se realmente acreditam no que dizem ou escrevem, o que suspeito é que sofrem de uma necessidade de se destacarem, como que um ponto negro numa tela branca, na ilusão messiânica de ver as suas palavras reconhecidas como a iluminação que faltava às mentes dos seus leitores; posicionam-se como um auditório elitista, que de elite tem muito pouco.

Permitam-me que assuma aqui um papel de “Charlie” e afirme de forma convicta: tal comportamento não passa de uma pseudo-intelectualite de vão de escada, daquela que devemos repugnar; só lamento não ser dotado de dotes de ilustração. Gostaria de caricaturar, por exemplo, a euro-deputada Ana Gomes, o apresentador Gustavo Santos ou argumentista/cronista João Quadros; tão bons exemplos do que refiro. Ter uma opinião livre é um direito e, da mesma forma que alguns se manifestam livremente, sinto-me no direito de expor a mediocridade de quem se alimenta do oportunismo de uma contra-opinião por decreto.

Não interessa se gostávamos do trabalho de Charlie, muito menos se aderimos ao movimento; importa que tenhamos respeito pelos outros e sejamos sérios no que afirmamos. Pode haver quem não compreenda, mas “ser Charlie” é uma negação de actos bárbaros e uma declaração de defesa de algo que não podemos dar por adquirido: a nossa noção de civilização.

Je suis Charlie! Não por ele, mas por todos nós.

nunodasilvajorge

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