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Referendo: o presente envenenado de Tsipras e Varoufakis

Varoufakis

Vivemos tempos históricos. Talvez não tenhamos noção disso, mas o destino da Europa joga-se em casa grega, num jogo em que ninguém sairá vencedor.

Há 6 meses atrás a Grécia era um país em extrema dificuldade, mas que dava ligeiros sinais de recuperação e que, depois dos sacrifícios desumanos a que tinha sido exposto, começada a estar estável financeiramente. Ainda não podia aliviar as medidas de contenção orçamental, mas não necessitava de aumentar a carga pesada das mesmas. Estava estável. Hoje a situação é diferente.

Seis meses passaram desde a eleição do actual Governo, liderado por Tsipras e o seu mais fiel escudeiro Varoufakis. Foram seis meses de constantes avanços e recuos. Foram seis meses de imprevisibilidade e instabilidade. Foram seis meses de avanço para um beco sem saída. Hoje estão sem mais tempo, sem mais dinheiro e sem mais esperança.

A promessa de acabar com a austeridade transformou-se em radicalismo. E do radicalismo nasceu a desconfiança e recuo dos parceiros europeus. O resultado foi a irresponsabilidade de atirar os gregos para a catástrofe iminente e tentar levar toda a Europa consigo. ‘Se eu cair, vão todos atrás’ – é esta a ameaça que o Governo do Syriza nos apresenta, camuflada de insinuações de terrorismo e de chantagem.

Nada que nos surpreenda, vindo de políticos que têm na sua vertente ideológica um ódio visceral ao sistema financeiro e à noção de mercado. Há que ter em conta que a destruição (ou o colapso) do sistema será sempre visto com bons olhos por determinadas pessoas, mesmo que isso custe o sacrifício de milhares. Para essas determinadas pessoas existe uma esperança escondida na queda da Grécia: o nascimento de um mártir que iniciará a sequência destrutiva de todo o sistema que serve o grande capital. Uma profecia ideológica, onde a ideia de sacrifício (ao bom estilo bombista) não pode passar despercebida.

Tsipras e Varoufakis sabiam de início que os parceiros europeus e as instituições nunca iriam aceder a determinadas condições ou ideias. Mas insistiram nelas. Ignoraram que a Grécia tinha sido um problema durante muito tempo. Assumiram um posicionamento que raramente traz boas soluções, o de traçar uma linha de separa e não une; traçaram uma linha em que se assumiam como o bem e todos os outros eram o mal. Agiram com a tradicional arrogância ideológica e não se preocuparam com o desfecho possível de umas negociações que estavam marcadas pelo histórico grego: impossibilidade de cumprimento das obrigações, adulteração das contas para entrar no Euro e as condições especiais que já lhes tinham sido concedidas, incluindo a reestruturação da dívida em 2012. A paciência da Europa começava a esgotar-se mas o Governo da Grécia pouco se importou com isso. Tsipras insistiu em levar o seu povo para a beira de um abismo, viu-se encurralado e fugiu à responsabilidade.

Para não ficar com o onus da decisão, Tsipras anunciou um referendo à margem das negociações e bi-polarizou um país à beira do desespero. Brindou os gregos com um presente envenenado: a escolha entre uma morte lenta ou uma morte dolorosa. Em vésperas de referendo, os gregos têm um sistema financeiro com controlo de capitais, dificuldade de abastecimento nos supermercados e uma única grande certeza: o futuro será pior que o presente.

nunodasilvajorge

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