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E dizem eles: “a luta continua…”

O que se tem escrito, e dito, nos últimos dias sobre a Grécia é o exemplo de que a esquerda revolucionária lida mal com as suas derrotas e esconde os seus falhanço com a arrogância. Entre os votos contra o acordo de assistência por parte dos deputados do Syriza, entre demonização de Schauble e a teoria conspirativa de uma humilhação ao povo grego, vale tudo para os revolucionários. Vale culpar o sistema, arranjar inimigos e inventar teorias da conspiração.

Houve uma escolha para salvar a Grécia e preservar a estabilidade da zona euro. Pode discordar-se da solução encontrada, mas querer imputar à solução um conjunto de desculpas, que os livra do fardo pesado de terem sido derrotados no seu próprio jogo, é uma demonstração de que não são capazes de aprender com os seus erros. Por isto, a esquerda revolucionária continuará igual a si mesma: falhada e à procura da próxima oportunidade.

A esquerda revolucionária salta de sonho em sonho em busca do vale encantado. E continuará a saltar.  Continuará a procurar causas que representem a esperança de suplantarem o seu descontentamento com mundo. Saltará até ao dia em que não consiga evitar a desilusão consigo mesma. Saltará até ao dia em que não houver mais ninguém para culpar que não ela mesma.

Este é o desígnio da esquerda revolucionária, que acredita que, no seu oráculo marxista, está escrito que são os representantes do interesse puro e que nada mais está correcto, é bom ou desejável. Acreditam que da sua razão emergirá com uma força revolucionária que tratará de libertar o mundo da opressão do grande capital. E o síndroma da revolução falhada, o grande choque com a realidade, tem sido seguido de uma negação constante do mundo real.

A esquerda revolucionária está longe de compreender os seus falhanços. A culpa é sempre dos outros. Culpa o mundo pela não concretização da sua profecia, como que se a sua ‘razão histórica’ (para usar o termo marxista) lhe estivesse a ser negada constantemente. É a razão a que acreditam ter direito, porque nos compêndios dos movimentos dialéticos de Marx está “provado” que o fim da história chegará com a Revolução. Ignoram que não se pode provar a história para o futuro, ignoram que a política é uma questão de escolha entre alternativas, ignoram que a validade de uma profecia resume-se ao capítulo da crença e nada mais.

Ignoram selectivamente os elementos que dificultam o seu ponto de partida. A esquerda radical convence-se a si mesma para evitar a sua própria desagregação. E faz-lo com uma certa aura literária. É a mesma que encontramos na obra de Cervantes D.Quixote quando a realidade e o ideal não estão alinhados e entra-se no campo da fantasia. Mas a fantasia no mundo da política não tem o nome de ficção, chama-se delírio: uma crença errada mantida com grande convicção. Entra-se no campo do faz de conta para evitar que a esperança caia por terra.

O receio de desilusão dos radicais resulta única e exclusivamente na sua própria cegueira. E para citar Cervantes: “Um dos efeitos do medo é perturbar os sentidos e fazer que as coisas não pareçam o que são.”

nunodasilvajorge

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