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O problema do PS não é este ou aquele cartaz, é o que esta história representa.

A construção dos cartazes socialistas tem uma leitura política óbvia: o Partido Socialista está com dificuldades em posicionar-se no espectro político. Devemos olhar para o problema como um todo e reconhecer que o problema é maior do um cartaz mal concebido.

Comecemos pelo início. O PS lança um outdoor com a mensagem “É tempo de confiança.” e um visual demasiado new age, em estilo profético e que causou inquietação dentro do aparelho socialista.

nuno da silva jorge

O cartaz que despertou a polémica

 

O aparelho socialista, como sabemos, sofre do síndroma de conservadorismo excessivo que encontramos nos partidos políticos e reage mal a propostas arrojadas – excepção seja feita ao Bloco de Esquerda, que, pelo seu posicionamento irreverente (muitas vezes excessivo) procura uma mensagem que a maioria dos partidos considera ser um papel das juventudes partidárias.  Mas não bastava ao Partido Socialista o desconforto com o visual do seu cartaz (aprovado pelas suas estruturas), que ainda teve o azar de viver num mundo em que os social media são incontornáveis (apesar de muitos ainda não se terem apercebido disso) e, quando deu por si, o cartaz era alvo de gozo por todo o lado. Desde aparições de Sócrates e Seguro, as cheias de Lisboa ou António Costa a pregar aos apóstolos, tivemos um pouco de tudo. Foi a partir daqui que sucederam os erros.

Vejamos, um cartaz polémico não faz mal a nenhuma candidatura e ser alvo de gozo é incontornável ao combate político. Lidar mal com isso é um erro capital. Retirar o primeiro cartaz foi o primeiro erro e demonstrou insegurança por parte da candidatura de António Costa, que não foi capaz de resistir à pressão e transformar uma pequena crise numa oportunidade de reforçar a mensagem que queria vincular de início. Em vez de assumir uma posição firme e de liderança, deu a parte fraca. Há momentos em que a liderança é posta à prova e este foi um deles.

O segundo erro foi uma vaga de cartazes que transpirou amadorismo por todo o lado. Um conjunto de imagens com histórias que pretendiam explorar alguma identificação do eleitorado com o caso particular das pessoas que figuravam na imagem.

Entre o mistério sobre a autoria do cartaz, que nem Edson Athayde nem Vítor Tito se atrevem a dizer “a ideia foi minha”, o Partido Socialista brindou-nos com uma mensagem pela negativa, sem opções construtivas, com incoerências de mensagem que aludiam a desempregados no tempo da governação de José Sócrates (a que a oposição não tardou em esfregar as mãos de contente e pensar “fugiu-lhes a boca para a verdade), com violação dos direitos de imagem das pessoas que aparecem nos cartazes e que apresentam histórias fictícias. Uma dose de amadorismo demasiado elevada para um partido que se quer assumir como alternativa de Governo.

 

São demasiados sinais de insegurança. E normalmente a insegurança conduz a erros de decisão que em situações normais não aconteceriam.

 

Para finalizar, o PS retomou a mensagem da confiança, desta vez com António Costa como figura central. É a aposta total na imagem do candidato a Primeiro-ministro.

nuno da silva jorge

Esta aposta no culto do líder aparece como camuflagem da falta de mensagem de alternativa política. Repare-se que a aposta na cara de um candidato deve ser normalmente usada para aumentar a notoriedade de candidatos pouco conhecidos ou como um apelo final ao voto, mas não constitui mais valia na construção de uma percepção de política alternativa; joga tudo na afectividade e não nas políticas. O que se lê deste cartaz (e da sequência que o precedeu) é a dificuldade do PS em apresentar propostas políticas alternativas que não passem por dizer aos portugueses que António Costa é mais confiável do que Pedro Passos Coelho (curiosamente foi exactamente o mesmo que foi usado por Costa contra Seguro).

Alguns dirão que as eleições não são um concurso de outdoors e que estes não passam de fait divers. Este é o típico argumento que ignora que os cartazes ajudam a consolidar a narrativa e o posicionamento de uma candidatura numa campanha política. Se fossem indiferentes não se gastava dinheiro com estes suportes. Os americanos não o fazem, não por serem insignificantes, mas porque os anúncio de televisão são permitidos (o que em Portugal não acontece). Os cartazes são importantes, não para convencer mas para diferenciar e consolidar os argumentos.

Os cartazes são um bom indicador sobre a narrativa global das candidaturas. Apresentam uma ideia geral de rumo, um posicionamento e uma diferenciação face aos seus oponentes. O que se lê, do ponto de vista da análise política, é que o Partido Socialista está pouco estável, não pelos cartazes em si, mas pelos sinais de insegurança, de falta de consistência e de falta de proposta alternativa que esta trapalhada expressa.

Para tentar estancar a crise, que se instalou dentro do seu próprio aparelho, o PS acabou por recorrer à solução do bode expiatório e Ascenso Simões, director de campanha, demitiu-se. António Costa espera tirar partido dos efeitos de uma chicotada psicológica e tem fé que o assumir de culpas do “treinador” salve a sua face. Mas este sacrifício resolve apenas metade do problema.

No fim do dia, a polémica dos cartazes desaparecerá, mas o problema político que esta história expressou continua por resolver.

nunodasilvajorge

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