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Onde está a Política? – sobre as Eleições Presidenciais de 2016

eleições presidenciais 2016Os portugueses escolhem o Presidente da República no próximo domingo. E à medida que a campanha presidencial se aproxima do fim ficamos com aquela sensação amarga de ter sido uma das mais desinteressantes que há memória. Não vimos a Política. Não nos galvanizámos com ideias. E demos por nós no meio de um vazio de substância que nem os holofotes e a efémera espuma dos dias conseguiu camuflar.

Onde está a Política? – perguntamos quando nos deparamos com campanhas presidenciais o sem sal e a pimenta que tempera o gosto pela vida pública. Se ainda estamos na ressaca mal curada de umas eleições legislativas duplamente inesperadas, com um resultado histórico da coligação do anterior Governo e um volte-face parlamentar inédito, os candidatos presidenciais pouco têm colmatado o desânimo generalizado de uma sociedade dividida entre a esperança na retoma de rendimentos e o receio de uma nova tempestade financeira.

No meio deste vazio, não é de espantar os resultados que apontam para uma vitória à primeira volta de Marcelo Rebelo de Sousa. O antigo comentador da TVI não tem sido um ‘rolo compressor’ político, daqueles que esmagam os seus adversários com argumentos e ideias que cativam um eleitorado ansioso por um líder presidencial que dê vida a um final de mandato cinzento de Anibal Cavaco Silva, mas tem sido igual a ele mesmo, enchendo a tela da televisão com os nossos conhecidos momentos de entretenimento e simpatia – os mesmos que o ajudaram a construir um ethos confiável junto dos eleitores.

Marcelo tem sido Marcelo. E nada mais. E que pena, porque não temos a oportunidade de presenciar o melhor que tem para oferecer a nível de combate político. Infelizmente, não precisa de mais para ser Presidente. Não porque não seja capaz, mas porque enfrenta uma oposição que não tem imposto a discussão política em terrenos que deixem o “professor” menos confortável. Os seus adversários caíram na armadilha de discutir currículos e personalidades. Ora, aí Marcelo é imbatível. Quinze anos de comentário político em prime time fazem com que não necessite de explicar quem é: Marcelo é familiar e o “educador” a quem o povo se habituou a procurar a explicação simplificada de uma complexa realidade política.

Nenhum dos restantes candidatos tem compreendido que só se compete com Marcelo se o obrigar a discutir ideias e a vincular-se com uma posição sobre os assuntos. Não se ganha a uma personalidade mediática bem sucedida a discutir a sua personalidade. A estratégia de ter muitos candidato com o objectivo de ‘dividir para conquistar’, e forçar uma segunda volta, poderia funcionar se houvesse outro tipo de perfis envolvidos. Com todo o respeito por Sampaio da Nóvoa e Maria de Belém (para falar apenas nos dois adversários que, neste momento, podem aspirar a uma possível segunda volta), teria sido bem mais interessante ver Marcelo gladiar-se com António Guterres, Rui Rio ou Francisco Louçã. E quando menciono estes três nomes fico com a ideia que as eleições presidenciais já não são o eram. Estão hoje longe de ser uma luta entre titãs.

Estou convicto que Marcelo ganhará. E será merecido. Não por ter feito uma campanha brilhante, mas porque fez a campanha necessária perante outros nada fizeram para contrariar a inércia do seu favoritismo. Pouco se ouviu nesta campanha sobre as grandes questões nacionais e europeias. Discutiram-se decisões hipotéticas de eleições antecipadas e garantias de cumprimento da Constituição, como se a presidência se reduzisse a uma espécie de árbitro sentado no trono da República. Para todos os efeitos, o Presidente é o guardião máximo da consciência do regime. É suposto que tenha uma perspectiva sobre os assuntos da própria natureza do regime. O que pensa o próximo presidente sobre o futuro da União Europeia? Sobre a integração das comunidades da lusofonia? Sobre o combate ao terrorismo? Sobre a garantia da dignidade de vida dos portugueses? Sobre a visão e modelo de sociedade que defende para o país? Ficamos sem saber o que pensam os candidatos a Presidente no que realmente interessa. E no final dia, pergunto: onde estão os que lhes deveriam ter perguntado?

nunodasilvajorge

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