0

Terrorismo: o inimigo invisível

terrorismo

Os recentes atentados em Bruxelas, Istambul e Paris, tornam obrigatório que se olhe para o problema do terrorismo na Europa. Muito pode ser dito, mas como se pode olhar o problema de forma séria e sem entrar num discurso fácil que levará a uma “caça às bruxas” e a uma sequência inevitável de injustiças, que não se desejam inscritas na nossa história?

Toda a abordagem ao terrorismo deve começar por identificar que o terrorista é um inimigo invisível. Não tem nome, não tem cor, não tem religião e não tem cara. Ao longo da história este fenómeno tem-se manifestado em diversos contextos, sobre diversas bandeiras, mas usando o mesmo tipo abordagem que remete para a noção de desequilíbrio de poder: o terrorismo é sempre uma luta do mais fraco contra o mais forte. E este desequilíbrio faz com que muitas vezes apareça disfarçado com a ambiguidade perigosa que a frase ‘os terroristas de uns, são os heróis de outros’ levanta.

De facto, o terrorismo tem um carácter ambíguo e quando mais cientes tivermos dessa sua característica melhor o podemos combater. Independentemente das razões injustificadas que lhe dão origem, o terrorismo obedece à lógica do que é considerado crime por uns é visto como uma reacção justificada à coerção por outros. Por mais que os seu actos sejam condenáveis, a demonização sem compreensão tornar-nos mais fracos para o podermos combater. É importante compreender-se o funcionamento do terrorismo.

A forma assimétrica que o conflito terrorista assume obriga-nos a este exercício. Especialmente porque o terrorismo é normalmente utilizado pela parte mais fraca do conflito armado, que procura reduzir a assimetria militar através da força inesperada e de um secretismo que impede o oponente de se defender. O terrorismo actua sem aviso e sem que o adversário tenha noção da natureza da ameaça – é, para todos os efeitos, uma acção invisível, que é justificada aos olhos do terrorista como uma forma de ultrapassar a assimetria de um opressor. Esta é a natureza do terrorismo – olhado de forma descritiva e sem obedecer a um exercício normativo – que devemos ter em conta. O terrorista usa meios violentos num conflito que sabe que não pode vencer pela violência. A sua vitória é psicológica.

E basta um exercício histórico para compreender esta natureza.

Este não é um fenómeno novo e comportamentos ‘tipo terrorista’ têm sido registados ao longo da história. O primeiro grupo, de que há documentação, a praticar uma espécie de “terror sistemático” foram os Zealots, que operavam na região da Judeia, no antigo Império Romano. Com objectivos religiosos e políticos, opunham-se ao domínio romano que não conseguiam combater de igual para igual. Ficaram conhecidos pelas suas práticas de provocação e intimidação, nomeadamente na perseguição de autoridades romanas e dos judeus que colaboravam com o Império, cortando a garganta das suas vítimas, com punhais, em locais públicos – não só como assassinato, mas também com a intenção de criar instabilidade e conversas sobre os actos que os cidadãos presenciavam.

Tácticas semelhantes às do terrorismo continuaram a ser praticadas em actos de guerra até ao séc. XVIII, mas sem o elemento fundamental do terror: a instauração social do medo num território pacífico. Foi apenas com a assinatura do tratado de Westphalia em 1648, que terminou a Guerra dos Trinta anos e permitiu o desenvolvimento da paz europeia através do reconhecimento mútuo dos princípios de soberania e dos Estados-nação, que se deu uma viragem importante para o nascimento do terrorismo moderno. Os Estados passaram a ser concebidos como territórios soberanos, dentro dos quais a paz iria permitir a sua prosperidade e o seu desenvolvimento. E é a percepção de paz e segurança que viria a ser alvo de ataques terroristas.

Cem anos mais tarde, em 1795, os termos ‘terrorismo’ e ‘terrorista’ começam a ser usados, após a Revolução Francesa, no que ficou conhecido como o Período do Terror, iniciado pelo Governo revolucionário, que suspendeu as garantias civis e levou à guilhotina milhares de pessoas consideradas inimigas da revolução. Este período inspirou a noção de repressão, mas também a reacção dos contra-revolucionários com tácticas terroristas de tentativas de assassinato e intimidação aos agentes revolucionários. Com a paz dentro dos Estado e os avanços de comunicação, permitiram, mais tarde, que movimentos políticos extremistas, nomeadamente anarquistas e comunistas, se organizassem sob a forma terrorista e provocassem diversos ataques, como o caso do ataque ao Czar russo Alexander II por parte do grupo terrorista Narodnaya Volya.

O terrorismo continuou a desenvolver-se e assumiu a sua forma contemporânea com os efeitos da Segunda Guerra Mundial. Os novos movimentos independentistas, como os casos do IRA na Irlanda e da ETA em Espanha, e a bipolarização Estado Unidos / União Soviética, que levou a conflitos em zonas periféricas, proporcionaram condições para o uso de tácticas terroristas contra a segurança interna dos Estados. A era contemporânea do terrorismo internacional acaba por nascer em 1968 quando a Frente Popular de Libertação da Palestina fez refém os passageiros de um voo entre Tel Aviv e Roma, usando o valor simbólico do acto para ganhar cobertura mediática.

Após o atentado de 11 de Setembro de 2001 às Twin Towers em Nova Iorque, o terrorismo internacional começou a ser alvo de preocupação nas sociedades ocidentais, nomeadamente pelos ataques em Londres, Madrid e, mais recentemente, em Paris e Bruxelas.

Em todo o caso, o terrorismo esteve sempre associado ao desequilíbrio de forças e de um grupo que, incapaz de lutar de igual para igual, recorria-se de meios extremistas. O terrorismo é sempre uma escolha radical, assente num conjunto de tácticas estruturadas num triângulo composto pelo terrorista, a vítima directa e as vítimas indirectas. É mais do que um ataque cobarde às suas vítimas directas. É, desde o tempo dos Zealots, até ao terrorismo contemporâneo, uma tentativa de influenciar a sua própria audiência.

Na sua expressão actual este evento psicológico é ainda mais acentuado com a exploração mediática. O terrorismo pretende atrair atenção para uma determinada causa e instalar um sentimento de insegurança dentro de um determinado território. Para todos os efeitos, está mais perto de um acto de guerra psicológica do que de uma luta bélica. Veja-se o que aconteceu em 1972, durante os Jogos Olímpicos de Munique, em que a Organização Setembro Negro assassinou onze israelitas. As onze vítimas foram apenas um meio para alcançar um bilião de pessoas que assistiam ao evento e induzir-lhes um sentimento de medo. Ou veja-se o que se passou com o ataque de 11 de Setembro de 2001 em Nova Iorque, em que biliões de pessoas assistiram em directo à queda das Twin Towers. Mais do que as vítimas directas que causou, o atentado teve o seu maior impacto no medo que provocou à escala mundial.

É do medo que o terrorismo se alimenta e não das mortes ou feridos que provoca. A natureza do terror é instaurar um sentimento de insegurança no qual é, quase sempre, bem-sucedido.

E como se combate o terror? Combatendo o nosso medo. Combate-se não lhe dando o efeito que ele pretende. E, se andamos pelo vale da morte, não temeremos mal algum. Este é o primeiro passo para vencermos o nosso inimigo invisível: não deixarmos que o efeito pretendido das suas acções seja alcançado.

nunodasilvajorge

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *