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O que alguns comentários sobre a situação da Turquia me fizeram pensar: mais do mesmo.

A Turquia suspendeu a Convenção Europeia dos Direitos Humanos à luz de um estado de emergência. Mas, a que se deve o nosso espanto?

O filme é antigo, ainda a preto e branco. O que vemos na Turquia, vimos noutros tempos, noutras paragens. É estranho o nosso espanto. Pior, é estranha a nossa indiferença. O mal que não se extermina, e que permanece entre nós, continua perante a nossa apatia intelectual. Permanece entre um balde de pipocas e uma mudança de canal. Permanece entre o entretenimento de um reality show cujo guião não foi escrito por uma produtora de conteúdos, mas que é fruto de uma dimensão humana que se encontra enraizada nos textos Carl Schmitt: a dimensão do político é aquela que permite a um ser humano nomear o outro como seu inimigo.

É a dimensão pura e mais cruel do político que encontramos hoje na Turquia. É impressionante que estamos fadados a repetir os mesmos erros: ao que Erdoğan chamou de “vitória da democracia”, quando travou uma tentativa de golpe de Estado, rapidamente se transforma num deja vu, numa cronologia de eventos tão familiar: primeiro a agitação, depois a legitimação pela aclamação e por fim a caça à bruxas.

E nada disto é deixado ao acaso.  A purga de purificação do regime lembra sempre um certo livro de George Orwell, tão bem nosso conhecido e que retrata na perfeição como alguns “animais são mais iguais do que os outros”. Mas, ao contrário de 1945, hoje o entretenimento passou do livro para a televisão e da ficção para a realidade. Aqui e noutras paragens.

O terrorismo entra pelas nossas casas como se de um filme de terror se tratasse, o perigo de Donald Trump é banalizado através da perspetiva de quem o olha como se fosse um concorrente do festival da canção e a recuperação económica do país é entendida como aquele formato programa gasto e que já se torna chato. Pelo meio, um campeonato da Europa ganho por Portugal soa tão real quanto o resto.

Funde-se tudo com o entretenimento. E somos contagiados pela apatia generalizada, algures entre o sentimento de impotência e de indiferença. Mas com uma grande indignação sempre que necessário. Porque o filme merece-se a crítica, pois claro.

Mas, noutro nível, outros sofrem do mal inverso. Atenuam a sua consciência com o sentimento artificial de contribuição para a mudança. Dizem que tudo começa nos pequenos gestos que fazemos, mas para a maioria deles acaba no mesmo sítio em que se iniciou.

Entre tantos pequenos gestos que servem apenas para atenuar peso de consciência e dar sentido a uma vida de outra forma difusa, enche-se o mundo de uma mão cheia de nada. Fomenta-se um conjunto de boas intenções para atenuar a dor do que realmente acontece.

Deixa-se de comprar aquela marca de roupa que explora mão de obra infantil como crítica à globalização, mas esquece-se que muita dessas crítica só é possível por ela. Deixa-se de consumir aquele alimento porque os animais têm direitos, mas, ao mesmo tempo, mata-se as moscas e as formigas sem qualquer peso na consciência. Passa-se a dizer ‘Humano’ em vez de ‘Homem’ sob o pretexto que o masculino das palavras é discriminatório.

Entre os que não têm causas e os quem vivem tudo como uma, dou por mim a pensar que o melhor é mesmo ir para praia.

Nada de novo.

 

nunodasilvajorge

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